Ògún: Se você não cresce, você se perde.
Tal qual a natureza, somos programados para evoluir, mas a verdade é não somos treinados para fazer isso.
Quantas vezes na vida, você minou o seu potencial criativo por não se achar capaz, por não se achar merecedor, por acreditar que não deveria?
Quantas vezes alguém da sua família, da escola ou do seu círculo de amigos bateu no seu ombro dizendo que você estava sonhando demais e que aquilo que você estava compartilhando não era pra você?
E aí o que aconteceu? Seu Orí se deixou levar, acreditou nessas “verdades” e você cresceu inseguro, imaturo e o pior: sem achar que é merecedor de ir além.
Essa foi a minha história e talvez também tenha sido a sua porque é assim que a grosso modo, o mundo funciona: Sempre tem alguém se autosabotando porque outra pessoa o sabotou antes.
E essa autosabotagem (onde na filosofia yorubá chamamos de inimigos internos) precisa ser vencida diariamente porque esse inimigo que mora dentro da gente é o único que pode travar o nosso crescimento. Não há outro.
Essa verdade é tão intrínseca no culto a Òrìsà, que não é à toa que todo bom sacerdote sempre nos orienta a cultuar Orí porque somente um bom Orí é capaz de agir a nosso favor. E para se ter um bom Orí, não tem outro caminho: tem que desenvolver ìwà pèlé (bom caráter).
Refletindo sobre essas questões, cheguei à conclusão de que a autosabotagem não só faz a gente deixar de avançar, como ela comete algo ainda mais grave: ela faz a gente se perder.
E aí eu vou citar um exemplo que acontece O TEMPO TODO dentro de uma casa de axé:
Fulano é um ótimo devoto de Orixá, está sempre tentando aprender, se dispõe a ajudar a casa e você sente que ele ama mesmo Orixá. O tempo passa e algo estranho começa a acontecer: fulano vai se afastando, vai deixando de entregar o que entregava e logo depois fulano sai da casa.
Quando essas coisas aconteciam, eu sempre me perguntava: “Como assim? Mas fulano? Como chegou a esse ponto?”
Orixá sempre respondeu no meu Orí:
“Se você não acompanha o crescimento da sua comunidade, você se perde”.
Ok, isso é óbvio e podemos falar outrora porque isso acontece, mas eu precisava ver na prática como òrìsàs se autosabotaram e se perderam e como era esperado, eu encontrei as respostas em Ògún. Porque tudo que diz respeito ao crescimento, é sobre ele.

Quando o mundo era apenas um atoleiro, Ògún descia do céu pelas teias de aranha sempre que vinha caçar. Um tempo depois, Òrìsànlá desceu ao ayié com os outros òrìsàs e decidiram completar a Criação. Òrìsànlá tinha muitas dificuldades de andar pelas florestas porque seus instrumentos de bronze não cortavam o mato. Somente Ògún tinha instrumentos de ferro que eram capazes de derrubar árvores e abrir caminhos.⠀
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A pedido dos Òrìsàs que lhe ofereceram recompensas, Ògún concordou em ajudar Òrìsànlá e assim, se colocaram a construir a cidade de Ifé. Assim que finalizaram as construções, foi oferecida a coroa a Ògùn, que a recusou, pois não desejava ter súditos, não queria ter compromissos.⠀
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Ògún não queria governar, preferindo caçar e guerrear. Durante muito tempo viveu no alto de uma colina e quando finalmente desceu para visitar os òrìsàs, esses não o receberam porque suas roupas estavam manchadas de sangue.⠀
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Ao descer da montanha, foi descrito por alguns babalawo:⠀
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Ojo Ògún nti orioke nbo,⠀
Aso ina lo mu bora⠀
Ewu eje lo wo sorún…⠀
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Tradução: no dia em que Ògún desceu a montanha, vestia uma roupa de fogo, estava coberto de sangue…
Decepcionado, Ògún tirou as roupas sujas, vestiu-se com folhas de palmeira e foi viver sozinho, nunca permanecendo muito tempo num mesmo lugar, até que posteriormente ele foi para Ire, em Ekiti, estado de Ondo.⠀
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Ògún é um orixá que fala muito sobre progresso, crescimento e todo o seu axé se concentra nisso. Todos precisamos de Ògún para sobreviver.⠀
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E por ser um orixá bastante ligado ao processo evolutivo da humanidade, tudo que bloqueia o fluxo de crescimento, é contrário a Ògún.⠀
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Quando optou por se negar a crescer, Ògún deu a própria sentença: se perdeu completamente de si. ⠀
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E aí podemos nos perguntar: O que levou Ògún a não aceitar a coroa? Falta de autoconfiança? Egoísmo? Não querer assumir responsabilidades? Preguiça?⠀
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É isso que ocorre quando a gente se nega a evoluir na espiritualidade, na profissão ou em qualquer outra área da nossa vida… a gente se perde! Porque o fluxo de tudo que está na natureza, é progredir, avançar.⠀
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Eu sempre brinco que quando a gente se inicia pra Orixá, a gente assina um contrato que estamos comprometidos com nosso crescimento espiritual, mental e material.Quando não cumprimos essa claúsula, acontece conosco, o que aconteceu com Ògún: tendemos a ficar sozinhos e sem estabilidade em lugar nenhum. Ou seja: perdidos.
E é interessante que a gente encare esses lugares não só como lugares físicos, mas também como lugares mentais: quando não estamos crescendo, deixamos de estar em outros padrões de consciência, em espaços de pensamento e comportamento que nos ajudarão a tornar nossa vida aqui mais leve e tranquila.⠀
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Resumindo: crescer é a única saída.⠀
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Ser um indivíduo de axé e se negar a esse crescimento contínuo, é agir contra a Ògún que dia e noite oferece condições para a humanidade não parar.⠀
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E aí você pode se perguntar: Mas se Ògún é contra isso tudo, porque ele agiu assim?⠀
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Porque diferente de outras teologias, a gente aprende também com os erros dos Òrìsàs. O axé deles também nasce dos seus erros e das suas dores. É isso que torna nossa filosofia de vida ainda mais bonita.⠀
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Uma parte da narrativa conta que após esse episódio, Ògún partiu pra Ire e lá foi coroado Rei. Por aí você já conclui que enquanto devotos de Orixá, todos os dias teremos a oportunidade de dar a volta por cima mesmo estando perdidos.⠀
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Isso será assunto para um outro momento.⠀
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Que Ògún nunca deixe você se perder. Não pare de crescer!